Nova lei da TV paga aquece mercado para roteiristas no Brasil

Por Keila Jimenez

Procura-se alguém que goste de escrever, com disponibilidade para trabalhar de dez a 12 horas diárias, inclusive nos fins de semana. É essencial ser devorador de livros, mestre em diálogos e bom cumpridor de prazos. Alguém se habilita? O mercado procura bons roteiristas.

Pedras preciosas da dramaturgia desde sempre, esses profissionais são cada vez mais cortejados por canais ansiosos por se adequar à nova lei de TV paga, que fixa cotas de conteúdo nacional.

Mediadoras do contato entre as redes por assinatura e os escribas, as produtoras independentes alistadas para gerar esse material caçam profissionais competentes, dispostos a trabalhar muito.

Para o diretor Fernando Meirelles, da O2 Filmes, a falta de bons roteiristas tem sua raiz nas escolas de cinema, onde a maioria dos alunos quer ser diretor. “Um filme ou um programa de TV é muito mais do autor do que do diretor, mas os créditos não fazem justiça a esse fato”, diz.

Segundo ele, outro fator que atrapalha é o fato de certos diretores, ainda que não talhados para as letras, arriscarem-se a assinar roteiros. “A troca e o confronto de sensibilidades com o roteirista é um dos prazeres da profissão de diretor”, afirma.

Ele confirma que, com a atual demanda da TV paga, a busca por contadores de histórias nunca foi tão grande.
“Os caras bons nunca têm agenda. Tente conseguir um texto do Jorge Furtado ou do Bráulio Mantovani. Eles vão pedir gentilmente para você pegar a senha para 2017”, brinca Meirelles.

TUDO AO MESMO TEMPO

Considerado um dos melhores do mercado, Mantovani se diverte com o que considera serem exageros do diretor da O2.

“Tudo tem dois lados. Paga-se muito mal a roteiristas no cinema, principalmente quando se leva em conta o tempo de dedicação ao trabalho”, avalia ele. “Os roteiristas são obrigados a se envolver em vários projetos ao mesmo tempo e, se nenhum dá certo, você fica sem trabalho. Já aconteceu comigo.”

Assim como as jornadas de trabalho, longa é a formação de um bom roteirista. Produtores e diretores dizem que dificilmente um profissional desses desabrocha antes dos 30 anos e que só a leitura compulsiva e a experiência de ver as suas obras no ar aperfeiçoam um roteirista.

“O que fez a Globo ser o que é hoje foi o Boni [José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, ex-diretor geral da rede] ter se preocupado antes de todos em formar um grande time de roteiristas, seus novelistas”, acredita Beto Ribeiro, roteirista e produtor-executivo da Medialand. “Tanto que a Globo tem dificuldade em repor esse time até hoje.”

O diretor Roberto d’Avila, da produtora Moonshot, diz que, fora da TV aberta, esses profissionais estão sujeitos a rotinas instáveis e incertezas financeiras.

Também julga faltarem cursos de especialização no país e mão de obra com “know-how” para experimentar diferentes formatos de dramaturgia.

“O que há agora é uma excitação grande no mercado, mas não vejo mudança de postura. Há muita produtora procurando projetos prontos e poucas investindo na formação de quadros”, aponta.

Fonte: Folha de São Paulo

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