Gestão cultural: administrar complexidades, gerir por meio de processos.

Por Mannuela Costa  (Mestre em Comunicação e Cultura, leciona nos Cursos de Cinema e de Publicidade da UFPE, onde também é Diretora de Extensão Cultural)

A experiência de trabalhar com a cultura, ao contrário do que acontece em outras áreas, nos leva a mais incertezas do que certezas. A simples transposição das ferramentas tradicionais da Administração dificilmente atende às especificidades da área, o que deixa o gestor quase sempre, à mercê de sua própria capacidade de adaptação e criação.

O entendimento da gestão cultural volta-se assim para um trabalho de articulação de competências e na análise da realidade de forma sistêmica – e até holística – como um ideal a ser perseguido pelos gestores culturais.

Formalmente, entende-se a gestão cultural como um processo de gerenciamento de bens, serviços e produtos culturais, que visem à criação ou manutenção das condições de oferta e fruição desses itens. Busca-se com isso que a gestão trate de garantir a possibilidade dos sujeitos participarem da vida cultural, se assim o quiserem. (A. Martinell Sampere, Participar en la Vida cultural: una lectura desde la gestión cultural, 2011)

A gestão cultural tem a difícil tarefa de articular demandas coletivas com o respeito à individualidade dos sujeitos, o que lhe obriga a operar um sistema complexo, com riscos, ao mesmo tempo em que precisa ter a capacidade reflexiva para avaliar as próprias ações e resultados.

Isto cria um paradigma para a gestão cultural, que se intensifica com as mudanças ocorridas em cenários e processos globais, como a democratização das tecnologias digitais de produção e fruição de obras culturais (Teixeira Coelho, A cultura e seu contrário , 2008). Existe uma clara necessidade de termos respostas mais rápidas aos processos espontâneos de conformação e produção cultural – do ponto de vista da oferta, isto é, da prática e não da gestão – uma vez que estes demonstram ter rapidamente se adaptado às condições globais de trabalho e lazer, que estimulam a colaboração, troca de experiências e intenso tráfego de informações.

Este conjunto, entendido como o Sistema Cultural (A. Martinell Sampere, Participar en la Vida cultural: una lectura desde la gestión cultural, 2011), também sofre influência movimentos políticos globais, mudanças de governo e afins, e reflete quase que diretamente a forma de consumo das sociedades, do uso do tempo livre dos sujeitos e, em última instância, se articula com o investimento na cultura, seja pelos indivíduos, pelo mercado ou pelo Estado.

Tendo isso em perspectiva, torna-se imperativo ao gestor cultural a adoção de algumas atitudes, como entender a equação entre os valores tangíveis e os valores simbólicos da cultura objetivada; a persecução por resultados claros, objetivos e mensurados, para avaliação das atividades; e cultivar a análise crítica (do ponto de vista estético) dos itens com que lida, aliada a uma compreensão do sistema de mercadológico em que estes se inserem.

Nesse ponto, passamos pelo fator de formação do gestor cultural, que especialmente no Brasil, ainda é frágil e quase sempre depende dos investimentos pessoais. Advinda, mormente, da prática, os gestores possuem as mais diversas especialidades, quando formais, mas contam, sobretudo, com a experiência, o gosto pela cultura e um forte componente de intuição. Além do mais, como se disse, existe um descompasso entre a velocidade da vida cultural em si e a velocidade da gestão cultural, sobretudo quando ela está ligada à gestão pública de cultura.

A gestão cultural, portanto, exige uma atenção à gestão por meio do raciocínio da complexidade, tanto pela natureza de seus objetos, quanto pelas questões de seu entorno, que pressionam continuamente. Um eterno convite à flexibilidade e à revisão constante de suas certezas.

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