Sobre o nosso valor público

Por Maria Vlachou (Mestre em Museologia pela University College London, com tese sobre a temática do marketing de museus. Diretora de Comunicação do São Luiz Teatro Municipal desde 2006 e Fellow no Kennedy Center for the Performing Arts em Washington)

A discussão à volta do valor das artes e da cultura conta já com bastante literatura. As questões relativamente à sua instrumentalização pelos governos ou ao seu carácter intrínseco têm estado na ordem do dia desde há muitos anos, sobretudo em países como os EUA, o Reino Unido ou a Austrália. Num determinado momento, considerando todas as ‘provas’ que se tem que dar, pensei que os profissionais da cultura são mesmo e apenas isso: profissionais da cultura. Não são nem professores, nem terapeutas, nem médicos, nem padres, nem polícias… Se o seu trabalho tem um impacto positivo noutras áreas, este impacto deve ser registado e os profissionais dessas outras áreas, assim como os ‘utentes’ das mesmas, deverão ser os nossos embaixadores. Mais do que qualquer estudo sobre, por exemplo, o impacto da cultura na economia de um país (existem vários, os governos usam-nos ou ignoram-nos), mais do que qualquer argumento que nós possamos apresentar em defesa do nosso contributo à sociedade, fazem falta os testemunhos dos ‘beneficiários’ directos – mesmo que de benefícios ‘colaterais’ – do nosso trabalho. E não nos esqueçamos, são essas as pessoas que votam nas eleições.

No entanto, mais que uma vez partilhei aqui a minha preocupação pelo facto dos profissionais do sector cultural estarem afastados da sociedade, das pessoas. Sempre que se debate a importância da cultura, as razões porque deve ser financiada pelo Estado, apresentamos argumentos que servem sobretudo para consumo interno. Somos nós a falar para os nossos pares em defesa do nosso ‘cantinho’. Passamos mesmo a ideia de que estamos a defender questões pessoais e não o bem comum.

As pessoas defendem e apoiam com os seus impostos a existência de hospitais públicos (esperando até que nunca venham a pôr pé neles, mas porque reconhecem na sua existência um bem comum). Como fazer para que se pense e se fale dessa mesma forma sobre a cultura? Para que todos, utilizadores e não utilizadores, a encarem como um bem comum e indispensável?

Há aproximadamente dois anos, deparei-me pela primeira vez nas minhas leituras com o termo ‘valor público’ (public value), num texto de John Holden de 2004 que se chamava Capturing Cultural Value: How culture has become a tool for government policy. Neste texto, o ‘valor público’ é definido como o valor acrescentado por um governo e pelo sector público no sentido mais amplo. Trata-se da diferença entre aquilo que os cidadãos dão às entidades públicas e aquilo que recebem. Os cidadãos reconhecem valor quando abdicam de algo para receber esse valor (na cultura seria, por exemplo,  dinheiro – para a compra de bilhetes, donativos… -, tempo, energia, trabalho voluntário, etc.).

No mês passado, o Detroit Institute of Arts (DIA) tornou-se notícia porque conseguiu convencer os habitantes de três distritos de Michigan a votar num novo imposto de propriedade que reverterá para o museu. Assim, o DIA terá $23 milhões por ano nos próximos 10 anos (91% do seu orçamento), ao mesmo tempo que tentará angariar mais fundos para, findos os 10 anos, poder continuar a funcionar. Após a votação do imposto, o museu ofereceu entrada gratuita a todos os habitantes dos três distritos.

A propósito deste acontecimento, Diane Ragsdale, autora do blog Jumper, fez uma excelente análise (ler aqui), com links também para outros textos, onde coloca questões que me parecem extremamente pertinentes: terá sido calculado o impacto (no sentido da redução) nas contribuições habituais dos cidadãos (donativos, compra de bilhetes, assinaturas, etc.); teria sido uma solução mais inteligente e mais ética procurar beneficiar com esta taxa várias instituições da área; estará o DIA a colocar-se numa posição desconfortável perante a comunidade ao ter que renegociar a sua relação com ela findos os 10 anos; o que motivou as pessoas a votarem o imposto e como se estarão a sentir o que votaram ‘não’; como deverá ser interpretada a triplicação do número de visitantes na semana a seguir à votação; e, por fim, qual será o impacto deste acordo quid pro quo no que diz respeito aos benefícios que uma comunidade poderá (e quererá) receber pelo seu apoio à uma instituição cultural?

Esta última questão leva-me a um outro excelente texto, de Nina Simon, autora do blog Museum 2.0, que se concentrou na discussão pública que se gerou durante a campanha do museu (ler aqui). Nina analisou os mais de 300 comentários no Detroit Free Press Online e voltou a colocar questões relativamente à forma como é entendido pelas pessoas o valor público da cultura e a forma como estes debates podem e devem ser conduzidos pelas próprias instituições culturais. Nina citou um interessantíssimo estudo, The Arts Ripple Effect: A research-based strategy to build shared responsibility for the arts, que, entre outros, identifica três principais ‘pré-conceitos’ no que diz respeito às artes: as artes são uma questão privada (uma questão de gostos, experiências e enriquecimento pessoais e também uma questão de expressão pessoal); as artes são um bem que pode ser adquirido (e por isso, deveriam funcionar como qualquer outro produto no mercado); as artes não são uma prioridade (até entre as pessoas que as valorizam). Portanto, o estudo sugere que, conhecendo estas e outras suposições, é possível construir argumentos em prol da cultura que a maioria das pessoas possa entender, reconhecendo o seu impacto na sua própria vida e naquela da sua comunidade. Um bem comum precisa de uma linguagem e de um quadro comum, partilhado por todos.

Rebecca Lamoin, Directora Associada de Estratégia no Queensland Performing Arts Centre e minha colega no Kennedy Center, está actualmente a trabalhar num projecto sobre o valor público das instituições culturais. No âmbito do projecto, irá promover um programa de rádio a nível nacional, aberto ao público. Nesta fase preparatória, está a convidar profissionais da cultura de todo o mundo a fazer breves depoimentos, respondendo às seguintes perguntas:
- Qual é a coisa mais importante que a sua organização fornece à sua comunidade?
- Porque é que a sua comunidade gosta da sua organização?
- De que é que as pessoas na sua cidade sentiriam falta se a sua organização deixasse de existir?

Penso que tentar responder a essas perguntas, e em especial à última, seria um bom exercício para todos nós. E seria ainda interessante saber quantas instituições culturais em Portugal têm já as respostas, porque procuram activamente recolher esses dados e registos.

*Publicado originalmente em www.musingonculture-pt.blogspot.com (português de Portugal)

Fonte: Site Cultura e Mercado

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